Criticas e artigos

“Realizado de maneira totalmente artesanal nos figurinos, nos instrumentos e no cenário, o espetáculo é um deslumbramento tão grande que é impossível conter as lágrimas e vários momentos. A Botija é digna dos maiores aplausos e merece as lágrimas que temos que enxugar ao final do espetáculo.”

https://palcopaulistano.blogspot.com/search/label/A%20BOTIJA

“A peça flui com ritmo contagiante, do começo ao fim, praticando a cartilha de boa dramaturgia com muito conhecimento e propriedade. O grupo sabe o que está fazendo, o que quer alcançar e com quem está lidando. Por exemplo, não abre mão de conversar com a plateia sobre aspectos da encenação, deixando claro que é teatro – e que teatro é convenção e exige o exercício da imaginação. O que se vê é como um prólogo brechtiano anti-ilusionista. Isso tanto é verdade que só depois de vinte minutos de peça começada é que o trio de atores dá início à narração da primeira lenda. Antes, eles preparam o clima, por assim dizer, e saem de seus personagens, se apresentando como atores, contando/cantando de onde vieram e onde ficavam seus quintais reais da infância.”

 

https://infoteatro.com.br/o-nordeste-que-nunca-sai-de-cena-no-teatro-para-criancas/

“O nome da companhia, Fabulinhando, faz jus aos alinhavos dos cenários, figurinos e adereços, e também os “alinhavos” dramatúrgicos, da encenação, cenários e figurinos e nas relações estabelecidas com o público durante toda a peça. Os procedimentos de contação de histórias e de construir as imagens juntamente com o público são ricos para o desenvolvimento da narrativa, além da coerência em proporcionar encontros, ao nomear pessoas, solicitar participações e ter uma escuta ativa permanente na interação com o público. Emocionante ver como os artista acolhem todas as pessoas e fazem com que cada uma se sinta importante na apresentação. Como no momento que todos elevam um tecido, assim como o poema “Tecendo a Manhã”, do pernambucano João Cabral de Melo Neto, para libertar a princesa da história. Público todo conectado à construção de um imaginário comum, rumo à Botija. Vai sendo elaborada a percepção de que a botija buscada está se fazendo a cada momento, a cada história, a cada encantamento dentro e fora da história.”


https://blog.bobsousa.com.br/a-verdade-do-teatro

“Mais do que uma peça infantil, A Botija é um manifesto poético sobre pertencimento e identidade. O trabalho da Cia Fabulinhando carrega a força de quem migrou e traz na fala e no corpo as marcas de sua terra. Como diz Jhoao Junior, a peça é um resgate emocional e artístico de sua própria infância no Rio Grande do Norte, ao lado das memórias de Maria Rosa, do Ceará, e Elaine Silva, de Alagoas.”


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Resenha Critica por Alexandre Mate – Professor Doutor, curador e pesquisador de teatro (Unesp-SP)

A Botija (2025)
Assisti ao espetáculo em um lindo e ensolarado domingo na Sala Vermelha, espaço representacional a compor o complexo que compreende o Itaú Cultural, da avenida Paulista. Encontrei-me no espaço com o amigo José Cetra Filho. Na verdade, assisto a poucos espetáculos infantis, sobretudo pelo fato de muitos serem os espetáculos adultos na cidade de São Paulo. Não haveria nenhum excludência entre uma e outra “categoria”, mas, e tendo em vista o processo de militância e de pesquisa a que tenho me dedicado, seria próximo do impossível “conciliar” as tarefas demandadas pela deslumbrante produção teatral na capital paulista. Mesmo diante de tal quadro mais complexo, vez ou outra tenho me “dividido” na tarefa. Neste caso específico, tenho um imenso carinho e respeito por Jhoao Junnior e Maria Rosa, dois artistas gigantes da cena teatral.

Já a adiantar a apreciação, fiquei tão comovido com a obra que, finalizado o espetáculo, tive muita dificuldade de/ em falar, o que quer que fosse, com quem quer que fosse. Um choro bom e decorrente do estado de beleza assistido me inundava e, parafraseando Paulo César Pinheiro, em Mordaça: qualquer solto som poderia – e como ocorreu – dar tudo errado. Ao tentar falar, vinha um choro em estado de catarata.
Além da dupla de intérpretes, cujo essência da obra ocorreu por meio de narração (que tem sido nomeada a partir de um determinado tempo como “contação de história”), interessei-me, fundamentalmente, em razão de ter lido que o espetáculo se propunha, também, a explorar a riqueza da cultura nordestina e seu universo de mitos e encantamentos. O que ocorreu, de fato. De fato, “roubaram-me”, permanentemente, a possibilidade de conhecer os povos originários, massacrados por incontável número de invasores; minhas origens familiares; as tradições e culturas dos brasis profundos! Nas escolas sempre a visão dos vencedores e a imposição, sobretudo, da cultura estadunidense e de pequenas e restritas outras ilhas de ideologia e culturas hegemônicas.
Quando comecei a me tornar adulto, e pude me reconhecer um ser completa e absurdamente ignorante, constituído por densas camadas de preconceito, e sempre em parcerias, que foram me auxiliando a descobrir os acessos a outras e escondidas manifestações, tive meu momento “18 de Brumário”. Fui me reconhecendo farsa, a partir da conivência, sobretudo inocente, com tantas tragédias e incontável número de “mortos sem sepultura”. De derrapamento em derrapamento fui me descobrindo e ao território de que fazia parte e estava inserido.
Muitas vezes, e em distintos graus de emoção, cantarolei a composição musical do compositor/ cantor português Zeca Afonso em sua Epígrafe para a Arte de Furtar: “Roubam-me Deus/ Outros o Diabo/ Quem cantarei?!”
O conjunto de manifestações das formas populares de cultura me interessam vivamente, as obras escritas (originalmente, em português, em seus distintos acentos e sotaques), e em todas as linguagens artísticas, interessam-me essencialmente: “Flor do Lácio Sambódromo/ Lusamérica/ Latim em pó/ O que quer/ O que pode esta língua?”.

A Botija é obra de resistência. É obra de extrema contundência e delicadeza. A primeira coisa que se via, já no pequeno teatro, era o cenário, construído com objetos artesanais: bordados, costuras, processos de colagens… semelhantes àqueles que nossas avós, tias avós faziam… Concepção de Irapuan Júnior, em cujo trabalho, tecido e “edificado” por mãos humanas e não distintos braços mecânicos. Uma onda de boas e singelas lembranças me invadiu… Na sequência, com a atuação de Jhoao Junnior, Maria Alencar e a musicista Elaine Silva, o processo mágico, representado pela narrativa bem dita, repleta de nuances poéticas iniciou um processo de comoção.
Nos materiais de divulgação do espetáculo aparece um indicador segundo o qual:
Inspirado na literatura oral nordestina, o espetáculo acompanha três irmãos que, depois de viverem na cidade grande, retornam ao quintal da casa de sua avó, no sertão, em busca de uma botija de ouro, um tesouro escondido sobre o qual ouviam histórias na infância.

[…]
ao longo do espetáculo, outras lendas tradicionais da cultura nordestina são reveladas. Figuras como Caipora, Mulher do Sonho e Princesa da Serra surgem para enriquecer o imaginário e transportar o público para o sertão.
Segundo o diretor Jhoao Junnior, a peça transforma o espaço cênico aos poucos, levando a plateia a diferentes paisagens e sensações. “O quintal da avó vai se expandindo, e os irmãos percorrem diversas paisagens sertanejas, convidando o público a adentrar esse universo”.
Junto com a dupla de intérpretes, a musicista Elaine Silva, cria uma trilha sonora, absolutamente poética, apresentada ao vivo e harmônica – conforme apresentado no programa do espetáculo, pelo uso de viola caipira, flauta, xilofone e percussões como tambor e pandeiro, mesclando músicas originais compostas pela equipe com canções do mestre alagoano Nildo Verdelinho.
Do grupo Clowns de Shakespeare, de Natal (quando o conheci) ao Estopo Balaio e à antológica e inesquecível criação de Cidade dos Rios Invisíveis, passando pelo lindíssimo e pungente Portar(ia) Silêncio, Jhoao Junnior, pelo conjunto de suas criações, se caracteriza em um dos mais significativos diretores teatrais da atualidade. Maria Alencar, cuja carreira se inicia na Zózima Trupe, coletivo paulistano de lindas montagens, encanta em A Cobradora e deleita em A Farsa do Açúcar Queimado ou A Mulher que Virou Pudim, espetáculo dirigido pela sempre querida Ana Souto.
Enfim, se tivesse de batizar a obra misturaria algo como uma xilografia, (des)engravurada encantante. Muitos, muitos, muitos salves ao teatro de grupo brasileiro. E quem puder que conte outras e tantas histórias à espera de manifestação.

Na ficha técnica do espetáculo constam os seguintes nomes: concepção original, dramaturgia e cenografia: Jhoao Junnior; atuação e direção: Jhoao Junnior e Maria Alencar; trilha sonora, pesquisa musical e musicista: Elaine Silva; bordados (figurinos): Maria Alencar; pinturas: Andrea Gandolfi; painel (tapeçaria): Irapuan Júnior; confecção do painel: Rafaela Brito; direção de movimento: Ronaldo Aguiar; canções e arranjos: Jhoao Junnior e Elaine Silva; coco de chegada e despedida: Nildo Verdelinho; iluminação: Júnior Doccini; operação de luz: Júnior Doccini e Rafael Inácio; assistência de produção: Marceu Silva; produção: Potyguar Produções; realização: Cia Fabulinhando.

Artigo: MEMÓRIAS DO QUINTAL: fabulações e imaginários nordestinos em A Botija.

Por Daniele Lopes dos Santos

“Este artigo busca compreender de que modo a construção artística de A Botija articula memórias, tradições e fabulações e como essa articulação, transformada em cena, dialoga com um ideário não reducionista do sujeito criança. Tal ideário compreende a infância não como etapa de incompletude ou mera preparação para a vida
adulta, mas como experiência social e cultural legítima, marcada pela capacidade de imaginar, interpretar e produzir sentidos sobre o mundo. Nessa perspectiva, a criança é tomada como interlocutora da obra artística e não apenas como receptora de conteúdos previamente definidos pelos adultos.”

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